odisseia atual

O primeiro de 2012 ou Os temas mudam

Odisseia atual era pra ser outra coisa. E virou um livro meu. Era pra ser uma visão e não um retrato. Mudou sem perceber, onde são poucos os leitores (talvez minha culpa que escrevo raramente), não sei se o número importa… Agora, escrevo pra mim mesmo. E gosto disso. Gosto realmente disso.

A fase agora é outra e tem que goste ou não. Minhas opiniões contrárias a da maioria muda conforme vai ficando obsoleto. Sim, os pensamentos ficam obsoletos, as pessoas ficam obsoletas. Assim como a maior estratégia do mercado (?). O medo está quando o mundo se tornar obsoleto para ele mesmo. Aí fudeu!

A fase agora é outra! É um ano de muitas dúvidas. O passado foi demudanças, agora é de dúvidas. Dúvidas, dúvidas & dúvidas. Ate que ponto elas são boas e nos ajudam (defina bondade, 2011 fudeu com minha cabeça!)

O mundo ta acabando?

A gente planeja até as férias. E elas também não seguem os planos feitos. Quando será tempo de mudar isso? Terminei de ler um presente e assisti-lo depois. “Persépolis”, escrito pela Marji. Ela não me conhece e talvez nunca me conhecerá, mas tenho sua imagem infantil como grande amiga: assim como Mafalda e Calvin (quem me dera que os adultos também fossem iguais a ele, principalmente os mais próximos a mim). O livro é impecável e o filme fofo. Fiquei aguardando o que mais gostei no livro e não achei na televisão (talvez seja essa a graça do cinema), no entanto muito bem dirigido e a trilha sonora é linda. Mas o livro, aah o livro me emocionou, me inspirou e me levantou um pouquinho o pensamento. Eu entendi, finalmente, uma pequena porção dos conflitos no oriente médio e as críticas aos de lá não podem ser tão injustas quanto as que tem dos de cá. E uma palavra cai bem em tudo isso: generalização. Essa palavra assim com poucas outras marcaram o ano de 2011 como nenhuma outra já marcara a minha vida antes. O perigo da generalização causa tanto desconforto quanto um bomba explodida ao lado (e é justamente essas generalizações que acabam explodindo bombas por todo lado). O que me lembra a tirinha do Quino, a adorável Mafalda:

Outro assunto legal de pensar e nas baboseiras ditas nas colações de grau. E é quando a gente logo vê os malditos valores passados de geração para geração como se fossem tesouros fixos e que não podem ser mudados nem controlados. Aparece um dizendo que a família e a religião são valores imutáveis que logo tacam pedras. (Lembrete: pedir pra Kuka a lista de valores imutáveis que tem no caderninho dela quando a gente estudava a II República espanhola).

Esses valores me irritam, e vou mudá-los (pelo menos os meus). E quem não aceitar as MINHAS mudanças que vão todos para aquele lugar =]

Paixões, máscaras e espelhos. 2011

Eu nunca sei como começar uma reflexão. É complicado escolher as palavras, dar coerência aos parágrafos e depois fechar com uma bela frase de efeito. Na maioria das vezes que eu percebo que quero escrever e estou com esse problema, coloco uma música inspiradora do tema, começo a dançar até sair alguma coisa. Claro, dançar teoricamente, me mexo um pouco vai. BEM POUCO.

Queria escrever algo sobre como foi o ano de 2011, primeiro ano em uma faculdade. Primeiro ano que eu conheci pessoas diferentes e sem a companhia de ninguém já conhecido (acreditem: isso foi uma evolução). Primeiro ano em sentir raiva de algumas coisas. Primeiro ano em querer matar um professor (podem acreditar, eu já tinha tido, mas dessa vez foi maior). Primeiro ano em tanta coisa que se eu listar aqui perco meu dia, até mais, porque não tenho uma boa memória. Ah! E me disseram que estou ficando mais velho porque estou com uma puta dor nas costas e no joelho, ARGH!

Mas vamos ao que interessa, mesmo que a minha paixão seja a enrolação. COMO EU FUI ESQUECER! Teve o primeiro emprego também. Que, aliás, não foi tudo o que eu sempre sonhei… MAS… – Vamos começar com a música escolhida: “Poker face” – Lady Gaga. Sim, eu sei que não é nenhuma poesia, mas quem disse que só as poesias nos inspiram? Acho um erro acreditar que apenas as coisas boas nos inspiram. A faculdade foi um erro? Não exatamente, porque foi uma bela fonte de inspiração, mesmo que dentro dela tenha saído tanta coisa ruim. Sim, infelizmente, e que no entanto eu transformei em belas poesias pra minha vida. Uma coisa boa que saiu da faculdade: amizade. Isso mesmo! Amizade foi algo que eu nunca percebi que mudava tanto a cabeça da gente, e sim, mudou, e sim, quando eu sair, eu vou sentir falta de tanta coisa. Mas nada que eu não supere com autonomia e não a heteronomia (né Kant? Acho que é isso) que me acompanhou a vida toda (fazer o que). E estou mudando tanto! Não sei nem se Deus (ou deus) existe ainda (eu digo, existir pra mim). E OH! isso é tão complicado. E sobre as paixões então. Gostar de coisas, acreditar em coisas a gente muda, e muda MUITO. E muda e muda e muda tanto. E são tantas máscaras que colocamos e tiramos e nunca ficamos sem nenhuma delas. Nós somos máscaras, eu pelo menos nunca me vi sem uma delas! Quem já se viu sem que atire a primeira pedra!

E tem os espelhos, sim os mesmos espelhos que eu achei que não tinham no prédio antigo e que teriam no novo. E não tiveram (pelo menos do jeito certo de ver espelhos). E agora eu odeio tantas instituições, tantas pessoas que fazem das instituições algo ruim e até começo a entender porque tem gente que odeia o ser humano e as relações sociais. Ai ai. Já escrevi tudo?

Acho que eu queria que entendessem, só que não sei se fui claro, eu raramente sou, isso é um objetivo, ser objetivo! E, o que eu queria dizer era isso. Eu acho

Sinceramente

Cansei de me sentir acuado por hipócritas. Mas o que mais temo é me tornar um deles também. O que me conforta é que eu seria apenas mais um. Meu problema seja, talvez, pensar demais enquanto outros pensam de menos, ou melhor, não pensam.

Quero entender o que se passa não só na minha cabeça, mas na cabeça dos outros também. Esse é o incomodo da minha vida, a pedra no meu sapato, a agulha que fura devagarzinho o meu dedo e que depois de tanta insistência faz sangrar, e dói.

Dói porque já foi ferido, dói porque é irritante. A dor do incomodo é a pior dor que existe. E eu a sinto diariamente, dia e noite, nos lugares, os cotidianos, que eu freqüento. Me incomodam de tal maneira que me sinto preso a coisas banais, idiotas e hipócritas.

Acreditei que seria diferente, eu esperei que fosse de uma forma. Meu pior defeito é esperar as coisas exteriores a mim. O idiota aqui acreditava no governo e nas universidades. Acreditava na superioridade deles. Acreditava que eles seguiam apenas o interesse comum e de todos. Não é bem assim.

O governo não governa e a universidade não ensina. E o que também poderia acontecer ao contrário, não acontece. A universidade detém de todo o poder e não o distribui de forma igualitária. E o governo não ensina, não dá exemplo a ser seguido, não se coloca como ser superior. Duas instituições sem crédito nenhum para mim, agora.

Chego a conclusão que tanto faz. Tanto faz se você sabe ou não, tanto faz se você faz ou não, se você acredita ou não. Sempre o capital é o mais importante. Você deve estudar para ter um bom emprego, trabalhar para poder comprar, e comprar para consumir e ser feliz. A felicidade e a vida foi resumida a esse ciclo idiota e vicioso em que as pessoas são inseridas justamente porque se deixam levar. E são levadas por pessoas e é daí que vem o ciclo e que eu, sinceramente, não entendo. E agora, não quero mais entender.

Não significa que vou me alienar. Significa que vou, não pelo capital, mas pela beleza de algo melhor. Pela beleza e estética que ainda existe. Vou ignorar o resto, aliás, farei parte do resto e ignorarei o tudo. Esse tudo que quer ser como o resto. Cansei de pensar, me sinto um babaca sofrendo por acreditar em tanta coisa que comecei a ver que não são como deveriam, ou como eu queria que fossem.

Não vou desistir da vida, o que estou fazendo é mudando o mundo, o meu mundo, e agora, de um jeito egoísta, arrogante e hipócrita, e isso não será nenhum diferencia.

Vou mergulhar no abismo da técnica e do progresso científico capitalista. Me inserirei num mundo incrível, novo e mágico onde apenas molhava o pé. Lerei best-sellers, aprenderei inglês e mandarim para o trabalho, acreditarei na Veja e na Rede Globo, consumirei produtos Apple e transformarei fome em vontade de comer e usarei a cultura e os estudos sociais para vender. Estou esquecendo de alguma coisa?

Só me falta uma coisa para fazer tudo isso ai em cima: coragem e hipocrisia. Melhor continuar pensando, só que dessa vez de uma maneira diferente. Alguém se habilita?

A insustentável leveza do ser

De acordo com dois amigos meus, acredito que agora posso me considerar um ser humano de verdade? Se formos levar em conta que só podemos nos considerar seres humanos depois de concluir a leitura da obra prima de Milan Kundera, então eu posso me considerar um ser humano.

A história que se passa na época das invasões da União Soviética no Leste Europeu, tem quatro personagens tão bem criados, construídos e tão reais a ponto de fazer acreditar que tudo aquilo realmente aconteceu! Essa realidade toda acontece graças a brilhante ideia de o autor colocar no texto as coisas a maioria das pessoas sentem mas não querem dizer ou tem vergonha disso.

Para mim, duas passagens são essenciais, aliás, três:

1. O conceito de vertigem

2. O que é o Kitsch

3. A diferença entre as relaçoes homem x cachorro e homem x homem.

Merece ser lido, relido e ser lido mais umas 20 vezes!

Para entender o que se passa

As pessoas são capazes de mudanças?

A minha reflexão de hoje, que aliás, há muito tempo não havia uma que desse vontade de escrever, é baseada justamente na pergunta que começo o texto. As pessoas são capazes de mudança?

Passo por momentos que tenho que aceitar todas as mudanças que ocorrem ao meu redor. Não digo “aceitar” porque eu não concordo com elas mas porque as mudanças elas não ocorrem de um dia para o outro e preciso aceitá-las e sozinho para que as mesmas nao prejudiquem as outras pessoas que estão ao meu redor.

A semana foi turbulenta. As mudanças estão acontecendo, e eu as vejo de um modo que ninguém vê e muita gente desconfia que possam dar certo. Mas estou realmente disposto a enfrentá-las até que elas sejam totalmente efeitvadas. Efetivadas para mim, sentidas por mim. Porque as práticas serão efetivadas. Ou melhor, estão ocorrendo de modo corrente agora e devo, por isso, sofrer no início. Para ser feliz no final. Como me disseram num livro.

O bom é que essas mudanças serão acompanhadas de muita leitura, muito estudo e muitos amigos. E o principal. Eu terei um tempo exclusivamente meu para poder pensar e repensar cada momento dessa mudanças e a partir daí estar no meu rumo certo.

Acredito num consenso, num consenso de sentimentos meus, e que serão promovidos através de minhas práticas cotidianas, diárias, no meu dia-a-dia [foi proposital]. Quando me disseram que era preciso autoconfiança, determinação e força para vencer essas mudanças, eu realmente fiquei perturbado, já que a maioria dos meus conceitos estão provocando as mudanças e ao mesmo tempo estão sendo mudados.

Conceitos que levamos conosco todos os dias e que mal paramos para analisá-los, já que são eles que impregnam a nossa mente e facilitam a nossa vida… Até certo ponto. Facilitam porque eles já vêm prontos para serem utilizados, ditos, e refletidos diretamente no nosso modo de agir socialmente. No entanto, quando não pensados, eles nos levam a ruinas de paradigmas, partem com rachaduras. Para entender melhor, imagine que suas ideias são feitas como quebracabeças. Cada peça é uma coisa que voccê pensa e a maioria delas não se encaixam com perfeição. Então você força para que elas se encaixam e para que permaneçam fixas. Vai chegar certo dia que se uma cair, já que a base conceitual não está bem formada as demais todas também caem pouco a pouco. Chega a hora então de você rever cada peça sua que já estão deformadas graças as suas forças impostas a elas. É necessário então, dessa vez, encaixá-las corretamente dessa vez. Ir atrás de novas peças, caso haja necessidade e novamente ir encaixando-as até que seu quebracabeças seja formado novamente. A dor e o sofrimento fazer parte dessa contínua busca por novas peças, novos conceitos e o encaixe perfeito de cada uma delas. Para que não haja contradições entre as suas idéias e suas práticas é preciso que tenha um consenso. Algo que nos faça aprender e aceitar essas mudanças.

A determinação é essencial nessa fase. Determinar objetivos não. Mas determinar algo que a partir daquele momento já esteja em funcionamento pleno.

Essa semana comecei a ler um livro, indicação de amigos que disseram que quem não leu esse bendito livro não pode ser considerado um ser humano de verdade. Não é nada filosófico, aliás, não há nele novas teorias de como se dar bem na vida e ser feliz. Pelo contrário, é um romance que exemplifica todos os sentimentos relacionados a cada ser humano. E isso é inacreditável. Vejam eu que mal comecei o livro e já está sendo uma das melhores experiências da minha vida. Mas então, logo nos primeiros dois capítulos (três páginas juntos) o tal do Kundera explica a filosofia de Parmenides e a de Nietsch (Eu nunca sei como escreve e estou com preguiça de procurar) de um modo simplista. É meio difícil resumir o alemão, mas o grego acredita que a vida são opostos: escuro/luz; frio/quente e assim por diante. E a maior contradiçao é saber qual é o polo negativo e o qual o positivo entre leveza e peso. Fudeu? Sim, fudeu! A vida toda o personagem principal acha que ser leve é ser lindo e feliz. Até que conhece a outra mocinha e descobre a insustentável leveza do ser.

“Orgulho e preconceito”

Primeiramente, prazer. Meu nome é Natália e o Thiago me emprestou um espacinho do blog dele pra um texto meu. Já o agradeço desde agora; no início do ano pedi a ele que publicasse algum texto que eu escreveria futuramente e ele na hora aceitou. O assunto eu já havia escolhido, mas demorei pra confiar em um texto que pudesse ser amplamente entendido e, consequentemente, discutido. Agora tenho as idéias e opiniões bem claras na minha mente para que isso aconteça e peço a vocês que também opinem ao final da leitura para que aumentemos nosso campo de visão e discussão.

Bom, desde o início do ano me sinto inconfortável com tantas notícias e fatos de agressões morais e físicas a homossexuais. Não me permitindo entrar em campo religioso ou parecido, pois creio que é algo muito pessoal, hoje (dia 02/08/2011) saiu uma notícia na Folha (que pode ser lida na íntegra aqui http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/953396-camara-de-sp-aprova-criacao-do-dia-do-orgulho-heterossexual.shtml) sobre um projeto do vereador Carlos Apolinario do Partido Democratas que foi aprovado pela Câmara e agora pode ser sancionado pelo prefeito Kassab. O projeto envolve a criação de um dia para comemorar o Orgulho Hetero.

Continuando a leitura, e retirando do próprio texto: “Segundo Apolinario, que é ligado a igrejas evangélicas, a data tem o objetivo de “conscientizar e estimular a população a resguardar a moral e os bons costumes”. Como já disse anteriormente, eu ignoro a informação de que ele seria ligado à igreja evangélica, pois creio que estamos numa democracia laica e que, portanto, religião e política não devem sofrer influências entre si. Então, enfatizo e argumento sobre o objetivo da data: resguardar moral e bons costumes? Homossexuais não os tem, ou eu interpretei erroneamente? E, que morais e bons costumes é desejado resguardar? Aqueles do pai e filho agredidos em São João da Boa Vista por serem ‘confundidos’ (como se fosse argumento aceitável) com homossexuais?

Certa de que a tal notícia do dia do Orgulho Hetero estaria causando rebuliço, entrei no Twitter e logo vi que estava entre os tópicos mais comentados. Dei um search na tag ‘Orgulho Hetero’ e comecei a ler alguns comentários. Não vou reproduzir aqui nenhum desses comentários, mas um era o mais citado, como:
Se existe dia do Orgulho Gay, porque não o dia do Orgulho Hetero?
Heterossexuais podem e devem opinar sobre que quiserem, bem como o orgulho ou manifestação que desejarem, já que somos livres e temos direito da liberdade de expressão para tal. Mas, sobre ter um dia de orgulho de ser heterossexuais: É uma classe oprimida pela sociedade?  É a minoria? Ainda precisam se afirmar na nossa sociedade? Já foram violentados somente por serem heterossexuais? Então um dia para o Orgulho da maioria sobre a minoria não seria discriminação? Acredito que, se os homossexuais ainda tem um dia para lembrar a sua condição, é porque a sociedade ainda não os aceita e cria impasses para isto, desta forma se fazendo necessária a data; assim como o Dia da Mulher e Dia da Consciência Negra.

Finalizando: não estou criticando o Orgulho Hetero, pois cada um deve ter orgulho do que acha melhor para si (mesmo achando a palavra ‘orgulho’ muito inapropriada para a ocasião – tanto homo quanto hetero), mas critico a criação da data, onde preconceito e homofobia se sobrepõem aos pequenos avanços que, lentamente, a sociedade brasileira tem feito.
Ainda há muito que possa ser dito, mas, e aí? O que vocês pensam disto?

Office

Certo de que é pura experiência e nada mais. As paredes são de concreto aparente, poucas são pintadas. O prédio é grande e vazio, ecoa solidão por todas as paredes, contudo o movimento da luz é sublime. O sol radiante se espalha pela manhã, só a luz, o calor se dissipa e então. E então é frio.

São só salas, corredores, escadas e, as vezes, pessoas. Pessoas que circulam da sala para o café, do café para a sala, da sala para o banheiro e do banheiro para o café e do café para sala. Ouve-se, de vez em quando, risadas, conversas, gritos, passos apressados e corridas pelos corredores. “Bom dia” – “Até logo”. São conversas que eu tento ter, que eu mantenho. Minha simpatia não ultrapassa os limites de um aceno com a cabeça. Quando falo em simpatia lembro de uma amiga, ela sabe que falo dela.

Qual a utilidade do trabalho é uma questão que me vem a cabeça o tempo inteiro. Se eu aprendo? Aprendo a perder minha inocência ouvindo burburinhos pelos cantos, risadas maldosas pelos corredores ou simplesmente pelo tema que estou trabalhando. Perco a inocência que, as vezes, eu tenho sobre as coisas políticas e as coisas da sociedade. Não perco meu tempo, trabalho com ele. Eu leio, leio, leio, escrevo, leio. Ofício difícil mas que muitos (quiçá a maioria) acreditam ser o mais banal e inútil dos ofícios. Pouco ligo para esse tipo de opinião mesquinha. As palavras são reflexo da vida. E uso delas para olhar o real.

Falando em espelho, reflexo, lembrei de uma passagem engraçada do meu semestre. Onde coloca-se a dualidade de significados que tem as palavras. Quem ler saberá do que estou falando. E agora com novos banheiros, toda vez que me olhar no espelho lembrarei da mesma coisa!

Porque agora eu sinto o que sentem aqueles que trabalham. O prazer em receber mas o desgosto em doar. Doar tempo, doar pensamentos e doar, muitas vezes, tudo o que você é. Aguentar o tédio por míseros tostões que deixam o mundo mais feliz, infelizmente. Almoço, caminho, subo as escadas e sento de novo. A tela reflete em meus olhos. Minhas pernas não querem ficar paradas. A cabeça voa, eu trago ela de volta. E continuo.

São Paulo?

Num domingo frio (para mim estava frio) e sem nada (ou sem querer) para fazer, fui ao cinema. Comprei os ingressos para o último e mais novo filme do Woody Allen, Midnight in Paris. Brilhante? Talvez. Hollywoodiano demais, o diretor e roteirista peca num filme previsível mas divertido de assistir. A falta de explicações deixa o filme mais interessante e mais maduro, vamos dizer assim. Não é a Paris que conhecemos que é mostrada no filme nem é de longe uma Paris ruim. É uma cidade sempre romântica. Sempre bela. Allen mostra uma Paris de outra época, o filme é moderno e nos mostra de forma, aí sim, brilhante como vemos (pelo menos a maioria vê) o presente, o passado e o futuro. Vou confessar que me deu muita vontade de terminar meus livros!

Mas o que me fez pensar realmente no filme não foi as belas imagens ou a trilha sonora impecável, foi o modo que é retratado o amor pela cidade. Os franceses sentem sim um amor patriótico pelo país e pela Paris charmosa e sempre contemporânea. É o lugar ideal para os artistas pintarem suas obras primas e os escritores escreverem seus belos romances ou tragédias. Mas porquê? Porque (eu nunca sei qual porque usar) é aquela cidade que inspira as pessoas a viver mais feliz e não sei mais o quê?

Imaginem vocês que as cidades prediletas de Woody Allen são Paris e Nova Iorque. Um pouco desconcertante? Talvez. Nova Iorque é uma cidade organizada, perfeita para o comércio e feita para suprir todas as necessidades do capitalismo. Paris foi símbolo da desordem e para o pai da arquitetura moderna francesa, a cidade deveria ser totalmente reconstruída ao modo moderno de construir. Isso porque o sufocante ar de Paris deixava a cidade suja, feia e o passado sombrio. Se muitos, hoje, depois de verem ao filme, sentirão desejo forte de xingar o cara que disse uma barbaridade dessas da cidade-luz. O charme da cidade esteja justamente nas vielas antigas e nas construções vezes modernas, vezes antigas de uma Europa feudal e que foi se ajustando aos moldes modernos do capitalismo.

Agora, e São Paulo? Vou ser sincero em dizer que não gosto do nome da cidade. No entanto, é claro que nos revela a história colonial brasileira. Arcaica, a cidade tenta aos poucos se organizar e se transformar numa capital nos moldes dos países mais desenvolvidos. Mas será que estamos no caminho certo? O que começou como um pequena vila (a Vila de São Paulo), foi se construindo capital graças aos produtores de café e os imigrantes. Crescendo cada vez mais, a cidade se construiu e se desconstruiu para suprir as necessidades das populações que apareciam aqui. As ruas sinuosas foram abrindo espaço para grandes avenidas pavimentadas. Num movimento ainda desconcertante, a cidade de São Paulo é, sem dúvida, uma grande capital bagunçada. As desigualdades da sociedade são vistas nos espaços públicos, no transporte e nos novos bairros criados para abarrotar pessoas de outros cantos do país. O problema da cidade é que as pessoas, por mais que reclamem ou achem a vida injusta na cidade, gostam desse movimento ondulado, desse crescente retrocesso da cidade. São Paulo recebe grandes eventos mundiais, é a capital gastronômica do mundo e o maior centro do capitalismo na América Latina. São Paulo é uma cidade bonita. Tem seus milhões de defeitos mas se você fechar os olhos, respirar o ar poluído e drogado, ouvir o barulho ensurdecedor e sentir a sempre mesma brisa da cidade pode ser que a inspiração venha rapidamente e faça de São Paulo uma cidade feita de detalhes bagunçados e maravilhosos.

A coragem da fé

“A coragem das opiniões sempre mereceu a consideração dos homens, porque é prova de dignidade enfrentar os perigos, as perseguições, as discussões, e até mesmo os simples sarcasmos, aos quais sempre se expõe aquele que não teme confessar abertamente idéias que não são admitidas por todos. Nisto, como em tudo, o mérito está na razão das circunstâncias, e dos resultados que podem advir. Há sempre fraqueza em recuar diante das consequências da sustentação das opiniões, mas há casos em que isso equivale a uma covardia tão grande como a de fugir no momento de combate.”

Este é um trecho retirado do capítulo 24 (Não Por a Candeia Debaixo do Alqueire) do Evangelho Segundo o Espiritismo, escrito por Allan Kardec. Comentando duas passagens bíblicas (Mateus, X: 32-33 e Lucas, IX:26). Ele denomina os comentários com o subtítulo do capítulo “A coragem da Fé”.

Há alguma razão, algum “sentido” ao escrever isso? Não seria expor as idéias contrárias aos dos demais a prova maior de coragem que um ser humano pode dar? Isso dentre nós, já que de nada vale provar as coisas fora desse mundo.

“Dos direitos e garantias fundamentais”, cito o título II do capítulo 1 da Constituição federal onde é ”inviolável a liberdade de consciência”. Além que ”ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política.” E também “é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença”.

Ainda assim podemos realmente nos expor e colocar qual a forma que achamos correta viver? Quais as crenças que queremos ter ou as idéias conscientes que queremos desenvolver? Somos realmente livres para isso? Podemos então sair pelas ruas gritando “Viva a Democracia!”?

A coragem precisa existir a partir do momento que exista consequências negativas se nos expormos. Consequências baseadas em puro ódio, discriminação e desrespeito a todos os seres vivos.

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